Celulares, tablets, televisão e videogames fazem parte do nosso cotidiano. Mas como garantir que a tecnologia não prejudique o desenvolvimento das crianças?
Hoje, é comum vermos bebês assistindo a vídeos no celular, crianças fazendo refeições diante da televisão e adolescentes passando horas conectados às redes sociais e aos jogos eletrônicos.
A tecnologia faz parte da vida moderna e pode oferecer oportunidades de aprendizado, comunicação e entretenimento. O problema surge quando o tempo diante das telas ocupa o espaço de atividades fundamentais para o desenvolvimento infantil, como brincar, conversar, movimentar-se, dormir e conviver com outras pessoas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta para a importância de estabelecer limites e acompanhar o uso de dispositivos digitais desde os primeiros anos de vida.
Por que precisamos ter cuidado com as telas?
A infância é uma fase de intenso desenvolvimento cerebral, emocional, social e motor. Para aprender a falar, construir relacionamentos, desenvolver a criatividade e lidar com as próprias emoções, a criança precisa de experiências reais, interação humana e oportunidades de explorar o ambiente.
Quando o uso das telas é excessivo, precoce ou inadequado, pode contribuir para problemas como:
- Alterações do sono: especialmente quando a criança utiliza dispositivos perto da hora de dormir.
- Dificuldades de atenção e aprendizagem: principalmente quando as telas substituem atividades que exigem participação ativa, concentração e interação.
- Prejuízos à linguagem e ao desenvolvimento: o uso passivo e excessivo pode reduzir as oportunidades de conversar, ouvir histórias e interagir com os adultos.
- Sedentarismo: o tempo prolongado diante das telas pode diminuir a prática de atividades físicas e as brincadeiras ao ar livre.
- Dificuldades emocionais e comportamentais: algumas crianças podem apresentar irritabilidade, conflitos familiares e dificuldade para interromper o uso dos dispositivos.
- Exposição a conteúdos inadequados: violência, publicidade abusiva, desafios perigosos, contatos com desconhecidos e situações de cyberbullying.
É importante lembrar que esses problemas não aparecem necessariamente em todas as crianças. Os riscos dependem de fatores como idade, duração do uso, conteúdo acessado, contexto familiar e atividades que deixam de ser realizadas.
Quanto tempo de tela é recomendado em cada idade?
A SBP apresenta recomendações específicas para cada faixa etária. Para orientar a rotina familiar, podemos resumir suas principais recomendações da seguinte maneira:
Menores de 2 anos: evitar a exposição às telas, inclusive como forma de entretenimento passivo.
De 2 a 5 anos: limitar o tempo de tela a, no máximo, 1 hora por dia, sempre com supervisão de um adulto.
De 6 a 10 anos: limitar o uso recreativo a 1 ou 2 horas por dia, no máximo, com supervisão dos responsáveis.
De 11 a 18 anos: limitar o tempo de tela recreativo a 2 ou 3 horas por dia e evitar permanecer conectado durante a noite.
Esses limites não devem ser interpretados como uma meta a ser atingida. São referências máximas para ajudar a organizar a rotina. Menos tempo de tela pode ser melhor, desde que a criança tenha oportunidades adequadas de brincar, aprender, se movimentar e conviver.
O uso necessário para atividades escolares deve ser considerado de maneira contextualizada, sem esquecer os intervalos, a postura, o descanso visual e o equilíbrio com outras atividades.
Cinco atitudes que ajudam a proteger seu filho
1. Não ofereça o celular como solução para todo momento de dificuldade
Dar o celular para interromper o choro, distrair a criança durante as refeições ou evitar qualquer situação de tédio pode se tornar um hábito difícil de modificar.
A criança também precisa aprender, gradualmente, a lidar com a frustração, esperar, conversar e encontrar outras formas de se divertir.
2. Preserve as refeições e a hora de dormir
Evite telas durante as refeições e estabeleça uma rotina sem dispositivos antes de dormir. A SBP recomenda desconectar-se de uma a duas horas antes do horário de sono.
O quarto deve ser um ambiente favorável ao descanso. Sempre que possível, deixe celulares e tablets fora dele durante a noite.
3. Acompanhe o conteúdo, não apenas o relógio
Não basta controlar quantos minutos a criança permanece conectada. É fundamental saber o que ela está assistindo, quais jogos utiliza, com quem conversa e quais informações compartilha.
Escolha conteúdos apropriados para a idade, utilize recursos de segurança e converse sobre privacidade, respeito e riscos no ambiente digital.
4. Ofereça alternativas atraentes
Brincadeiras, leitura, música, esportes, passeios ao ar livre, jogos de tabuleiro e atividades em família são importantes para o desenvolvimento.
Em vez de apenas dizer “desligue o celular”, procure oferecer outra possibilidade: “Vamos andar de bicicleta?”, “Que tal escolhermos um livro?” ou “Vamos brincar juntos?”.
5. Seja um exemplo para seu filho
As crianças observam o comportamento dos adultos. É difícil estabelecer limites para elas quando os próprios pais passam boa parte do tempo olhando para o celular.
Experimente reservar momentos do dia em que toda a família fique desconectada. Pequenas mudanças na rotina podem favorecer a convivência e a comunicação.
Como saber se o uso das telas está se tornando um problema?
Alguns sinais merecem atenção:
- A criança dorme mais tarde ou apresenta sonolência durante o dia.
- Fica muito irritada quando precisa desligar o dispositivo.
- Deixa de brincar, praticar esportes ou encontrar amigos.
- Apresenta queda no rendimento escolar.
- Esconde o que faz na internet ou acessa conteúdos inadequados.
- Passa a ter dificuldades importantes para participar das atividades familiares sem o celular.
Esses sinais não significam, isoladamente, que a criança tenha dependência digital. Entretanto, quando são persistentes ou prejudicam a rotina, vale conversar com o pediatra para avaliar o contexto e identificar possíveis necessidades de intervenção.
E quando os pais precisam usar telas para trabalhar?
Nem sempre é possível eliminar as telas da rotina familiar, e não se trata de culpabilizar os pais. Muitos adultos precisam dos dispositivos para trabalhar, estudar ou organizar as atividades diárias.
O objetivo é estabelecer limites realistas, proteger os momentos essenciais do desenvolvimento infantil e evitar que a tela se torne a principal forma de entretenimento, consolo ou companhia.
Também é importante lembrar que assistir a um vídeo educativo não substitui a interação com um adulto. Na primeira infância, conversar, cantar, contar histórias e brincar junto são experiências especialmente valiosas.
Para os pais
A tecnologia não precisa ser tratada como inimiga. O desafio é ensinar as crianças a utilizá-la de maneira segura, consciente e equilibrada.
Na infância, brincar não é perda de tempo: é uma das principais formas de aprender. Correr, imaginar, conversar, desenhar, explorar a natureza e conviver com outras crianças são experiências que nenhuma tela consegue substituir integralmente.
Mais importante do que perguntar apenas “quantas horas meu filho passa diante da tela?” é perguntar também: “O que ele está deixando de fazer por causa dela?”
Na consulta pediátrica, o acompanhamento do sono, do desenvolvimento, do comportamento e da rotina familiar ajuda a orientar escolhas adequadas para cada criança.
Cuidar da saúde infantil também significa cuidar da maneira como a tecnologia entra na vida dos nossos filhos.
Se tiver dúvidas agende uma consulta
SBP — #Menos Telas #Mais Saúde: atualização 2024. Documento de referência para as recomendações de uso de telas.
SBP — 10 questões para o uso saudável da internet para crianças, adolescentes e famílias.
SBP — Uso saudável de telas, tecnologias e mídias nas creches, berçários e escolas: atualização 2026


